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Archive for dezembro, 2009

Onomatopéias: a imitação do som em histórias em quadrinhos – HQ

Posted by linguaeliberdade On dezembro - 25 - 2009

onomatopeiasO termo onomatopéia origina-se do grego onomatopoiía (= ação de inventar nomes). É a criação de uma palavra a partir da imitação ou reprodução aproximada de um som natural a ela associado. No nosso cotidiano estamos sempre rodeados dessas representações simbólicas, que fazem parte do nosso universo cultural. O tic-tac do relógio, o triiimmm do telefone, o ding-dong da campainha dentre outras formas utilizadas em nossa língua para expressar os mais diversos sentidos.

As histórias em quadrinhos – HQ são gêneros, que apresentam bons exemplos de linguagens onomatopaicas. Ao abrir as páginas de uma HQ veremos quão farto é a utilização desse recurso pelos mais diversos personagens (Turma da Mônica, Chico Bento, Bolinhas, Batman, Homem Aranha, dentre outros). Dessa forma, o professor de língua portuguesa ou estrangeira pode ter em suas mãos um material riquíssimo para desenvolver as habilidades necessárias dos alunos sobre a compreensão, interpretação, produção textual e análise lingüística.

A função básica das onomatopéias, em uma HQ, é a de sonorizar a história imitando, por exemplo, o barulho de um tiro (bang!), de um relógio (tique-taque), de um soluço (ic!) dentre outros. É nesse sentido que proponho essa reflexão sobre as onomatopéias, a partir do gênero HQ. Trata-se de considerar que, no processo de ensino-aprendizagem de língua materna, a reflexão sobre o assunto só terá sentido quando contextualizada. Não é objetivo do ensino de línguas apenas mostrar ao aluno que as onomatopéias fazem parte da formação de novas palavras ou que tentam imitar os diversos sons da modalidade oral da língua. É necessário que o aluno perceba a função expressiva que esse recurso possui no texto escrito e os gêneros em que as onomatopéias circulam.

Elas, mesmo sendo palavras que procuram imitar os sons, estão arraigadas na cultura de uma comunidade. Dessa forma, são frutos da construção coletiva e, portanto, escolha arbitrária (no sentido saussuriano) de qualquer comunidade lingüística. Isso se prova, à medida que, como diz o próprio Saussure no Curso de Lingüística Geral, as onomatopéias “uma vez introduzidas na língua,  engrenam-se mais ou menos na evolução fonética, morfológica, etc., que sofrem as outras palavras”. Vejamos alguns exemplos:

ONOMATOPÉIAS

Português

Espanhol

Inglês

Imitação

co-co-ri-cóóó kikiriki cockledoodledoo Cacarejar
he he he Je je je he he he Risada
quá-quá mechmech quack Grasnar de pato
tun tun toc-toc knock knock Bater na porta
au-au guau bow wow Latido de um cão

As nossas HQ estão recheadas de onomatopéias que, além imitar uma diversidade de sons tentam enfatizá-los através das ações dos personagens. Na língua inglesa, por exemplo, várias onomatopéias surgiram a partir  de verbos que enfatizam a ação de personagens: o sniff-sniff (to sniff), para cheirar; splash!! (to splash), para o salpicar de água; crash! (to crash), para espatifar, além de muitas outras ocorrências. Na língua portuguesa, vários verbos possuem origem a partir de uma onomatopéia como o cacarejar provindo do co-co-ri-cóóó e tiquetaquear provindo do tique-taque (imitação do som de um relógio).

onomatopeias_hq2

Reafirmo, portanto, que as HQ podem ser importantes gêneros utilizados como recursos para a análise das onomatopéias. Além de trazer o assunto de forma prazerosa, pois acredito que o uso de histórias em quadrinhos desperte o interesse dos alunos, ainda ajuda no aprimoramento da leitura e da produção textual em gêneros que assim o exigir.  É também um importante recurso para inserir o aluno na pesquisa sobre a linguagem, demonstrando que a mesma é passível de investigação científica.

Vejam um episódio do desenho animado “Poderoso Thor” da década de 70, momento em que as onomatopéias eram bastante utilizadas em face a tecnologia da época.

Prof. Elias Maurício

Referências

BRANDÃO, Helena H. Nagamine. Introdução à Análise do Discurso. 2ª ed. Campinas: Unicamp, 2004.

CARVALHO, Castelar de. Para compreender Saussure. 3ª ed. Rio de Janeiro: RIO, 1982.


http://www.sobrecarga.com.br/node/view/3480

http://recantodasletras.uol.com.br/gramatica/1186787

A Lenda do Boto: eu juro que vi…

Posted by linguaeliberdade On dezembro - 20 - 2009

o botoPara relaxarmos um pouco nesse domingão, estou postando um pequeno curta animado sobre a “Lenda do Boto”. É uma história bastante interessante que envolve o mundo lendário da nossa cultura amazônica. Pode vir a ser um material utilizado em sala de aula pelo professor de  Língua Portuguesa, que deseja discutir diversas temáticas com os alunos,  além de refletir sobre o universo do imaginário popular e da cultura na amazônia paraense.

Origem:

A lenda do boto tem sua origem na região amazônica (Norte do Brasil). Ainda hoje é muito popular na região e faz parte do folclore amazônico e brasileiro.

O que diz a lenda:

De acordo com a lenda, um boto cor-de-rosa sai dos rios nas noites de festa junina. Com um poder especial, consegue se transformar num lindo jovem vestido com roupa social branca. Ele usa um chapéu branco para encobrir o rosto e disfarçar o nariz grande. Com seu jeito galanteador e falante, o boto aproxima-se das jovens desacompanhadas, seduzindo-as. Logo após, consegue convencer as mulheres para um passeio no fundo do rio, local onde costuma engravidá-las. Na manhã seguinte volta a se transformar no boto.

Cultura popular:

- Na cultura popular, a lenda do boto era usada para justificar a ocorrência de uma gravidez fora do casamento.

- Ainda nos dias atuais, principalmente na região amazônica, costuma-se dizer que uma criança é filha do boto, quando não se sabe quem é o pai.

No cinema:

- A lenda do boto foi transformada num filme em 1987. Com o título de Ele, o boto, o filme tem no elenco Carlos Alberto Riccelli, Cássia Kiss e Ney Latorraca. A direção é de Walter Lima Junior.

Na animação:

É um curta dirigido por Humberto Avelar e conta no elenco com a voz de Regina Casé. Foi lançado em 2004 e desde a época ganhou os prêmios de Melhor Curta – Júri Popular no Anima Mundi 2005 e Melhor Curta de Animação” no Festival de Guarnicê 2005.

Deixo, portanto, a minha sugestão para a utilização deste curta no ensino-aprendizagem de Língua Portuguesa, por meio do qual o professor terá a oportunidade de desenvolver vários eixos temáticos, trabalhar a leitura  e a produção de textos.

Prof. Elias Maurício

Ensino de Língua Estrangeira vai além da gramática

Posted by linguaeliberdade On dezembro - 16 - 2009

inglêsEstou usando no post de hoje uma matéria de Bruna Menegueço da edição 214 da Revista Nova Escola bastante interessante sobre o ensino de língua estrangeira. Sabemos da dificuldade de nossos professores em trabalhar a língua estrangeira em sala de aula, por isso essa matéria discute esse tema com bastante propriedade proporcionando uma reflexão sobre assunto. Vamos fazer essa leitura e tentar ampliar as nossas idéias para desenvolver um trabalho em sala de aula que faça sentido e tenha uma função social para a vida de nossos educandos.

Para aprimorar o ensino de Inglês e Espanhol, o ideal é usar textos diversos, valorizando a interação e as situações reais de comunicação

Os jovens – sejam japoneses, franceses, angolanos, brasileiros ou mexicanos – vêem os mesmos filmes, curtem as músicas de sucesso internacional, lêem os best-sellers e acessam ao mesmo tempo as páginas da internet. E fazem tudo isso usando, além da língua materna, o inglês e também o espanhol, que amplia cada vez mais seu alcance. Por isso, o ensino de Língua Estrangeira vem se modificando (confira a linha do tempo no quadro abaixo) e hoje busca, como principal objetivo, fazer com que os estudantes participem ativa e criticamente de um mundo com fronteiras diluídas no que diz respeito ao acesso à informação. “Os alunos têm, sim, interesse em aprender outro idioma a fim de entender as letras das canções e poder cantá-las e se comunicar via internet”, explica Deise Prina Dutra, formadora de professores de Língua Estrangeira na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

As pesquisas mais recentes no ensino das disciplinas estão vinculadas à perspectiva sociointeracionista (leia mais sobre outras formas de ensinar no quadro “Metodologias mais comuns”), defendida pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Essa visão leva em conta as necessidades dos alunos. “Sempre se deve perguntar por que o brasileiro precisa aprender outra língua e para quê”, diz Maria Antonieta Alba Celani, pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e uma das autoras dos PCNs.

Mitos pedagógicos


Confira alguns modismos passageiros e outras idéias sem fundamento sobre o ensino de Línguas:

É impossível ensinar em escola pública


“Eis um grande equívoco”, diz Deise Prina Dutra, da UFMG. “Há limitações, como a baixa carga horária, mas um trabalho bem-feito leva a turma a avançar.”

Gostoso é aprender sem perceber


Ninguém adquire conhecimento dormindo ou brincando. “Quanto maior o controle da criança sobre o que faz, mais facilidade ela terá para assimilar os conteúdos”, diz Luiz Paulo da Moita Lopes, da UFRJ.

É preciso falar como os nativos


O professor que nasceu ou viveu no exterior serve de exemplo de falante nas escolas de idiomas. “Mas alguns sem essa vivência se sentem incapacitados para ensinar”, diz Maria Antonieta Celani, da PUC-SP, que refuta a idéia. Línguas como o inglês e o espanhol são cada vez mais usadas por quem não nasceu onde esses idiomas são os oficiais.


Existe um método infalível


No fim do século 20, modelos vindos de editoras internacionais invadiram as escolas de todo o mundo. Pesquisadores como o indiano N.S. Prabhu lançaram a era pós-método, demonstrando que modelos que não levam em consideração o contexto local não são eficientes.

O sociointeracionismo critica a concepção de aprendizagem de abordagens e métodos que valorizam apenas as questões relativas à cognição e a comportamentos (aquisição de hábitos lingüísticos), sem considerar o contexto social, a interação e a mediação. De acordo com essa perspectiva, cuja origem é o pensamento do psicólogo Lev Vygotsky (1896-1934), a interação mediada pela linguagem sempre ocorre num determinado lugar social e num momento da história, e os professores têm de saber disso. Críticas a outras teorias aparecem também pela falta de preocupação com aspectos políticos, culturais e ideológicos que sempre estão associados à linguagem.

O importante é não cair em engodos da moda (leia o quadro ao lado), mas usar diferentes recursos para entender as práticas sociais de leitura e escrita e participar delas, como interpretar o rótulo de um produto importado ou entender as instruções de um videogame. Para pesquisadores e formadores de professores, as atividades mais significativas são aquelas que criam em sala situações reais de comunicação. Também é interessante que os jovens produzam textos em outra língua. “Se antes havia o modelo do download, de baixar conteúdo na internet, hoje existe o upload, com as pessoas produzindo informação”, explica Lynn Mario Menezes, da Universidade de São Paulo (USP). Isso tem ref lexos no processo educacional: “Os alunos não são passivos diante do conhecimento”.

O ensino de Língua Estrangeira no Brasil


1500 Com a chegada dos colonizadores, a Língua Portuguesa começou a ser ensinada aos índios, informalmente, pelos jesuítas. Posteriormente, foi considerada a primeira língua estrangeira falada em território brasileiro

1750 Com a expulsão dos jesuítas e a proibição do ensino e do uso do tupi, o português virou língua oficial. Os objetivos eram enfraquecer o poder da Igreja Católica e organizar a escola para servir aos interesses do Estado

1759 O alvará de 28 de julho determinou a instituição de aulas de Gramática Latina e Grego, que continuaram como disciplinas dominantes na formação dos alunos e eram ministradas nos moldes jesuíticos

1808 Durante o período colonial, a língua francesa era ministrada somente nas escolas militares. Com a chegada da família real, esse idioma e o Inglês foram introduzidos oficialmente no currículo

1889 Depois da Proclamação da República, as línguas inglesa e alemã passaram a ser opcionais nos currículos escolares. Somente no fim do século 19 elas se tornaram obrigatórias em algumas séries

1942 Na Reforma Capanema, durante o governo de Getúlio Vargas (1882-1954), Latim, Francês e Inglês eram matérias presentes no antigo Ginásio. Já no Colegial, as duas primeiras continuavam, mas o Espanhol substituiu o Latim

1945 Lançamento do Manual de Espanhol, de Idel Becker (1910-1994), que por muito tempo foi a única referência didática do ensino do idioma. Idel, argentino naturalizado brasileiro, tornou-se um dos pioneiros das pesquisas na área

1961 A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) retira a obrigatoriedade do ensino de Língua Estrangeira no Colegial e deixa a cargo dos estados a opção pela inclusão nos currículos das últimas quatro séries do Ginásio

1970 Na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, é criado o primeiro programa de pós-graduação em Língüística Aplicada ao Ensino de Línguas no país, tendo como um dos idealizadores Maria Antonieta Alba Celani

1976 Com a Resolução 58/76 do Ministério da Educação, há um resgate parcial do ensino de Língua Estrangeira Moderna nas escolas. É decretada a obrigatoriedade para o Colegial, e não para o Ginásio

1977 O professor José Carlos Paes de Almeida Filho, hoje professor da Universidade de Brasília, é o primeiro brasileiro a defender uma dissertação de mestrado com foco na abordagem comunicativa para o ensino de um idioma

1978 Evento realizado na Universidade Federal de Santa Catarina foi pioneiro no Brasil em combater as idéias estruturalistas do método audiolingual, funcionando como semente do movimento comunicativista

1996 Publicação da Lei de Diretrizes e Bases que tornou o ensino de Línguas obrigatório a partir da 5ª série. No Ensino Médio seriam incluídas uma língua estrangeira moderna, escolhida pela comunidade, e uma segunda opcional

1998 A publicação dos PCNs de 5ª a 8ª séries listou os objetivos da disciplina. Com base no princípio da transversalidade, o documento sugere uma abordagem sociointeracionista para o ensino de Língua Estrangeira

2000 Na edição dos PCNs voltados ao nsino Médio, a Língua Estrangeira assumiu a função de veículo de acesso ao conhecimento para levar o aluno a comunicar-se de maneira adequada em diferentes situações

2005 A Lei nº 11.161 institui a obrigatoriedade do ensino de Espanhol. Conselhos Estaduais devem elaborar normas para que a medida seja implantada em cinco anos, de acordo com a peculiaridade de cada região

2007 Foram desenvolvidas novas orientações ao Ensino Médio na publicação PCN+, com sugestões de procedimentos pedagógicos adequados às transformações sociais e culturais do mundo contemporâneo

FONTE: HISTÓRIA DO ENSINO DE LÍNGUAS NO BRASIL – PROJETO DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGÜÍSTICA APLICADA DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

A própria natureza da linguagem exige que se considere seu uso social, e não apenas sua organização. Quando o ensino se resume a vocabulário, gramática, funções (cumprimentar, pedir informação) e questões ligadas ao conhecimento sistêmico, a própria língua e sua estrutura passam a ser entendidas como objeto de ensino. O importante é incorporar o contexto de produção dos discursos, permitindo a compreensão do uso que as pessoas fazem do idioma ao agir na sociedade (conheça as expectativas de aprendizagem até o 9º ano no quadro “Expectativas de aprendizagem”).

É essa mudança conceitual que vem ocorrendo nos últimos 20 anos. Ao simularmos uma conversa por telefone, por exemplo, é importante analisar para quem ligamos e com que objetivos. “Em vez de trabalharmos só com exercícios de gramática deslocados da realidade, precisamos pensar na língua como instrumento e resultado do ensino”, explica Andrea Vieira Miranda Zinni, selecionadora do Prêmio Victor Civita Educador Nota 10.

Isso significa que, ao participarem de uma atividade real, as crianças vão aprender os conteúdos lingüísticos e também outros ligados à própria ação. Por exemplo, ao buscarem informação num site em espanhol, perceberão, além do vocabulário e da organização da frase, diversos conteúdos relacionados à pesquisa em si e ao assunto investigado.

Ao estudar um segundo idioma, o aluno usa conhecimentos prévios de leitura e escrita e faz analogias com a língua materna. Embora a maior parte dessas comparações não tenha correspondência, existe um conceito abrangente, vindo da área de Alfabetização, que pode ser usado em Língua Estrangeira: o desenvolvimento de comportamentos leitores e escritores por meio das práticas sociais.

Metodologias mais comuns

A disciplina tem duas abordagens teóricas: a estruturalista (voltada ao ensino da forma, da gramática) e a enunciativa. Delas derivam as seguintes perspectivas e maneiras de ensinar presentes na sala de aula.

Tradicional
Usada no século 16 no ensino do Grego e do Latim.
Foco Dominar a gramática normativa e a tradução literal.
Estratégias de ensino Trabalho com textos, em exercícios de tradução, e memorização de regras gramaticais e vocabulário, com o uso de ditados.

Direta
Foi instituída como oficial no Brasil nas décadas de 1930 e 1940. Seu principal defensor, Antônio Carneiro Leão (1887-1966), publicou em 1935 o livro O Ensino de Línguas Vivas.
Foco O estudante deve começar a pensar na outra língua, sem traduzi-la, por meio do contato direto com o idioma.
Estratégias de ensino Exercícios de conversação com base em modelo de perguntas e respostas. Não se usa a língua materna, e a compreensão é feita por gestos, imagens, simulações. O processo de aprendizagem obedece à seqüência de ouvir e falar, ler e escrever. As atividades são de compreensão de texto e gramática.

Audiolingual
Surge nos anos 1950, influenciada pelo behaviorismo de Burrhus Frederic Skinner (1904-1990) e pelo estruturalismo de Ferdinand Saussure (1857-1913).
Foco Fazer o aluno adquirir o domínio do idioma de forma natural.
Estratégias de ensino Audição, repetição, memorização e exercícios orais de palavras e frases feitas para que o aprendizado se dê por meio de reflexos condicionados.

Sociointeracionista


Começou a ser desenvolvida na década de 1970, com base no pensamento do psicólogo russo Lev Vygotsky (1896-1934). É também chamada de sociocultural. Não defende nenhum método específico.
Foco Aprender a língua nos contextos em que ela é realmente utilizada.
Estratégias de ensino Criação de situações reais de uso do idioma, com atividades que envolvam comunicação entre as pessoas e a utilização de diversos gêneros textuais e orais e a reflexão sobre eles.

Os principais instrumentos para trabalhar nessa perspectiva são os diversos gêneros textuais ou discursivos. “Os pesquisadores estão ampliando o conceito de texto, inserindo nele outras unidades lingüísticas, como fotografias, ilustrações, vídeos e obras de arte”, diz Walkyria Monte Mór, da USP. Ela explica que há discussões sobre os letramentos e os multiletramentos – escritos no plural por se tratar de gêneros escolarizados (narração, dissertação) e outros de uso social, como a página de um site ou o manual de um aparelho eletrônico. Isso requer novas habilidades de leitura que permitam interrelacionar textos, cores, movimentos, design, imagens e sons.

O trabalho com gêneros também possibilita o estudo de questões relacionadas à diversidade cultural e social. “Uma atividade com hip hop com uma turma que aprecia o estilo permite uma ref lexão sobre diferentes realidades e modos de viver”, diz Luiz Paulo da Moita Lopes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um dos autores dos PCNs.

Ao pensar na organização da classe, não se pode esquecer o conceito de mediação, centro do pensamento vygotskyano. Interagir com outra pessoa, adulto ou colega, é a melhor maneira de a criança avançar no aprendizado, principalmente no de Língua Estrangeira, que requer habilidades comunicativas.

Diferentemente das abordagens em que o professor aparece como modelo a ser seguido, a sociointeracionista valoriza a participação do aluno. O psicólogo israelense Reuven Feuerstein defende o papel da mediação docente para auxiliar as crianças a adquirir conhecimentos e estratégias que as levarão a ser autônomas para aprender e para resolver problemas.

“Não se trata de simples troca de informações, mas de pessoas trabalhando juntas, modificando o que sabem e chegando a um saber novo para todas”, explica Andrea Zinni. Ela lembra que a mediação pode ser feita também com internet, livros, revistas, DVDs e CDs em atividades em que mais de uma situação (escrita, leitura, fala e escuta) esteja em jogo.

Mudar a maneira de ensinar não é nada fácil e requer determinação e formação (leia depoimento de professor que resolveu apostar na mudança no quadro ao lado). Existem programas de formação continuada que introduzem diferentes maneiras de ensinar, com base em conceitos como o sociointeracionista. Porém, o gatilho de grandes transformações deveria ocorrer nos cursos de graduação.

De acordo com os especialistas, uma deficiência comum às faculdades de Letras é a pouca atenção que se dá à proficiência no idioma – já que existem professores que não dominam habilidades essenciais para o ensino de Língua Estrangeira, como a fala, a escrita e a audição. Outra é a falta de novas práticas no currículo, em especial o trabalho com gêneros. No geral, as grades disciplinares apresentam poucos momentos dedicados à didática.

Alguns cursos optam por tratar de todas as metodologias conhecidas. É o caso da Universidade Federal do Paraná. “Ensinamos as diferentes abordagens, pois nosso objetivo é garantir que os futuros professores possam lecionar em qualquer escola, pública, privada ou especializada em idiomas”, conta Eva Dalmolim, coordenadora do curso de Letras.

Já na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), apesar da resistência de alguns docentes, há uma tentativa de adaptação das metodologias à tecnologia. “Facilitamos o acesso às novas maneiras de ensinar, fazendo com que os alunos aprendam a utilizar filmes, laboratórios, músicas e videoconferências”, diz Inês Barbosa de Oliveira, professora da Faculdade de Educação.

A formação completa, contudo, deveria incluir a abordagem sociointeracionista, mas sem invalidar nenhuma estratégia, mesmo que sejam as específicas de outras abordagens. “Existem atividades dos métodos tradicional e audiolingual, por exemplo, que podem ser usadas em algumas situações desde que sejam significativas para a turma e estejam dentro dos objetivos de aprendizagem”, completa Luiz Paulo da Moita Lopes.

Expectativas de aprendizagem


Ao fim do 9º ano, os alunos devem ser capazes de:

- Analisar criticamente a importância e a finalidade de diversos gêneros, como textos literários, artigos, notícias, receitas, rótulos, diálogos e canções.
- Compreender o contexto de produção e identificar os elementos da estrutura que compõe os gêneros.
- Produzir textos informativos.
- Entender e dar informações em situações informais.
- Usar verbos e suas diversas conjugações, pronomes, conectivos, pontuação e vocabulário inseridos nos diferentes gêneros.
- Reconhecer o uso de voz passiva.
- Entender, avaliar e responder a instruções ligadas a situações de sala de aula (fechar o livro, prestar atenção).
- Avaliar ações de combinados, percebendo o uso de verbos para regra, pedido, obrigação e solicitação.
- Aprender a utilizar dicionários e enciclopédias.
- Localizar informações e idéias principais em textos.
- Diferenciar fato e informação de opinião.
- Apreciar texto literário escrito em Língua Estrangeira.
- Relacionar imagem e texto.
- Selecionar palavras-chave para reconhecer significados e inferir o sentido de expressões com base no contexto.
- Compreender regras e instruções (manuais, rótulos de embalagens, jogos etc.), identificando ações.
- Expressar-se usando pronúncia e entonação apropriadas.
- Compreender características culturais, finalidade e estrutura de diferentes tipos de músicas e gêneros literários.
- Cantar ouvindo a canção, observando pronúncia e entonação.
- Explorar experiências vividas em situações de aprendizagem, respeitando a seqüência temporal e causal.

PALAVRAS BEM DITAS TORNAM-SE BENDITAS E PALAVRAS MAL DITAS TORNAM-SE MALDITAS?

Posted by linguaeliberdade On dezembro - 14 - 2009

IMAGEM DE PROFESSOR

Essa postagem (ou post) tem o intuito de tratar de um tema veiculado na mídia sobre “erro” de português de uma professora da rede pública de ensino. Vamos primeiramente ao vídeo e depois aos comentários.

A competência da professora, nesse caso, resumiu-se numa simples palavra da língua portuguesa escrita num bilhete de forma equivocada. No entanto, ninguém mostrou o bilhete como um todo para ser analisado. O verbo “trazer” possui uma peculiaridade na língua portuguesa, pois é irregular da 2ª conjugação e regular no pretérito imperfeito do indicativo e nas formas nominais. Veja que no presente do indicativo temos “trago” e “trazes”, no pretérito imperfeito “trazia”, “trazias” e no pretérito perfeito “trouxe” e “trouxeste” para a 1ª e 2ª pessoas respectivamente. Na linguagem informal falada o leque de possibilidades do uso desse verbo se amplia. Quem nunca ouviu alguém dizer “eu trusse”, que pode ser explicado pelo fenômeno da assimilação. A maioria das pessoas, quando se fala em linguagem, pensa apenas em regras. Esse problema, que remonta aos estudos clássicos, ainda está arraigado no século XXI como símbolo de purismo e da arte da boa linguagem. Ora, como diriam os mais sábios puristas, “palavras bem ditas tornam-se benditas, e, mal ditas tornam-se malditas. É o caso da professora que utilizou uma forma não padronizada da língua portuguesa – “trousse” – e foi amaldiçoada. Veja que a mãe do estudante fala na reportagem não saber mais se os “erros” gramaticais do filho é culpa dele ou da professora que, coitada, escreveu apenas uma palavra que foge a norma padrão da língua. Palavra essa, realmente, que possui um grau de dificuldade para muitas pessoas devido a relação grafema-fonema. Em momento algum tiro a responsabilidade de uma educadora em possibilitar ao aluno o conhecimento de um leque de opções das variedades do português. Porém, não sabe a mãe indignada que parte da educação do filho está ligada ao próprio convívio familiar. Se existe “erro de português” também existe erro médico, erro profissional, erro dos pais, erro dos filhos, erro dos políticos e assim a vida humana vai prosseguindo com tantos erros. E diga-se de passagem erros cometidos na história da humanidade que ainda são premiados com símbolo NOBEL DA PAZ. Infelizmente ainda temos muito a aprender, compreender e apreender. Quando se trata de educação no Brasil todo mundo mete a sua colher como se fosse a “casa da mãe Joana”.  Não se trata de dizer que não seja papel da escola possibilitar o conhecimento e domínio da norma culta para o aluno. A noção de “erro” na língua que parece tão fácil de ser julgada por muitos necessita de uma observação científica bem mais acurada para além do senso comum.

DSC01162No dia 10/12/2009 aconteceu a VII Feira Técnico-científica e II Gincana Cultural da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Mário Queiróz do Rosário no município de Bragança – Pará.  Conforme a programação do evento, as atividade começaram as 08h da manhã nas dependências da escola e culminaram com o show do cantor paraense Nilson Chaves na Quadra de Esportes Corolão. Nilson Chaves foi homenageado pela Escola Mário Queiróz do Rosário.  Veja um trecho do show do cantor…

Voltando ao assunto… As seguintes temáticas foram abordadas, através dos projetos, na Feira: sustentabilidade, fontes de energia, cultura, artes, ciência, tecnologia e dança. Fui visitar o evento, bastante organizado, e senti falta de projetos que relacionassem temáticas sobre a língua portuguesa. Não estou aqui para julgar o motivo dessa lacuna, mas gostaria de evidenciar que a linguagem também pode ser objeto de investigação científica séria. É necessário levantarmos essa bandeira e mostrarmos que o “português da gente” pode ser observado com um olhar investigativo. Afinal, o ensino, a pesquisa e a extensão devem ser sustentáculos para o crescimento intelectual e educacional de nossos alunos.

Prof. Elias Maurício

Com esse título os alunos da Escola de Ensino Fundamental e Médio Professor Bolívar Bordallo da Silva apresentaram um projeto na feira de ciências da escola, no dia 10 de dezembro de 2009. Estive lá para prestigiar os vários projetos que estavam sendo apresentados e particularmente os projetos que se voltavam para a reflexão da linguagem. Como não encontrei trabalhos voltados, exclusivamente, para a análise da linguagem, resolvi postar algo sobre as minhas impressões do trabalho sobre a historiografia do rádio no Brasil. Os alunos se caracterizaram de personagens da época como vedetes, artistas e cantores e fizeram uma incursão cronológica para explicar o movimento de expansão do rádio e a sua importância na sociedade brasileira.

foto dos alunos na feira de ciênciasDSC01153

Expuseram o gosto musical com os movimentos que, ao longo do tempo, embalaram as ondas radiofônicas. O rádio, como um veículo de comunicação de massa, sempre esteve presente na história trazendo as mais variadas informações ao público ouvinte. Ao final da explicação, os alunos caracterizados dançaram ao som da música “O cadilac” de Roberto Carlos e Erasmos Carlos, bastante tocada nos rádios naquela época. A seguir, veja um trecho do vídeo de apresentação dos alunos que gravei. Já deixo aqui registrado os meus parabéns a todos os alunos e a escola que propiciou o evento.

Alguns fatos que movimentaram a história do rádio no Brasil:

Década de 20 – IMPLANTAÇÃO

- Primeira emissora oficial. Rádio Sociedade do Rio, rádio de cunho educativo voltada a elite.
- Alto custo do receptor(aparelho)
- Não divulgava anúncios, somente óperas, concertos, palestras e etc.

Década de 30 – CONSOLIDAÇÃO

- Primeiro Documento sobre Radiodifusão em 1931
- As rádios começam a divulgar anúncios e se estruturar como empresas
- Preocupação com a audiência
- Passa do cultural/erudito para o popular/lazer e diversão
- Surgem os primeiros profissionais, os programistas
- Os programas passam a ter horários fixos
- Vargas, em 1934 cria a Voz do Brasil
- Rádio Kosmos cria o primeiro auditório em 1935
- Rádio Jornal do Brasil, voltada a informação é criada em 1935
- Em 1936 é criada a rádio Nacional, considerada um marco da transformação do rádio no Brasil

- A partir de 1936: Época de Ouro do rádio, toda a publicidade passa a ser destinada ao rádio.
- 1940 a rádio Nacional é emcampada por Getúlio

Década de 40 – Época de Ouro

- Concorrência se acirra e a programação desce ao popularesco e ao baixo nível.
- Surgem as primeiras Radionovelas
- O Radiojornalismo começa a se estruturar surgindo os primeiros jornais que marcaram o gênero: Repórter Esso e Grande Jornal Falado na Tupi.
- Repórter esso chega ao Brasil em 1941 depois de estar consolidado em outros países na América Latina.Com ele chegam as grandes agências de publicidade como J.W. Tompson e Mc. Cann Erickson.Ficou 18 anos no ar, sendo transmitido por 5 emissoras brasileiras em 5 edições diárias.
- Em 1942 surge o IBOPE

Década de 50 – Decadência

- O rádio começa a perder verbas para a TV e busca uma nova linha de linguagem
- Começa a regionalização da programação
- O radiojornalismo ganha força com a rádio Bandeirantes SP, que inicia programação em notícias a cada 15 minutos
- Inventado o transistor que revoluciona o rádio, dando agilidade com a possibilidade de leva-lo para qualquer lugar
- As reportagens passam a ser transmitidas diretamente da rua, dando agilidade ao veículo.
- Começam a ser utilizadas as unidades móveis

Década de 60 – NOVOS RUMOS

- Aperfeiçoamentos eletrônicos diminuem o tamanho dos equipamentos e o rádio ganha agilidade e melhora a qualidade das transmissões
- Radiojornalismo torna-se mais atuante
- Em 1959, a rádio jornal do Brasil lança serviços de utilidade pública. A idéia é copiada por emissoras de todo o Brasil
- Rádio Panamericana instala serviço de meteorologia
- Surge o conceito de rádio tocando exclusivamente música com a Tamoco e a Excelsior
- Entram no ar as emissoras FM
- Surgem os primeiros programas populares com a participação do público
- Em 1969 é criada a rádio mulher

Década de 70 – SEGMENTAÇÃO/ESPECIALIZAÇÃO

- Identificação com faixas socio-econômicas-culturais, buscando a própia linguagem das classes que desejam atingir
- Emissoras lutam pelo público
- Emissoras voltadas para a informação aumentam seus serviços com a participação do repórter ao vivo
- 1976 é criada a RadioBrás – empresa brasileira de RadioFusão
- Surgem as agências de produção radiofônica

Década de 80 – Novas Tecnologias

- Surgem redes de rádios AM/FM via Satélite
- Utilização de CDS.
- Proliferação das rádios piratas

Década de 90 – Modernização

- Diferencial nos métodos de gerenciamento das emissoras
- Programação via satélite digital
- Internet
- Rádio a cabo

Bibliografia

BRASIL, História da rádio .  Disponível em: http://www.grupoescolar.com/materia/ historia_do_radio_no_brasil.html. Acesso em 10/12/2009.

Prof. Elias Maurício

Feira de Ciências em Bragança : Cadê a nossa língua?

Posted by linguaeliberdade On dezembro - 11 - 2009

cientistaHoje visitei duas Feiras de Ciências em escolas estaduais do município de Bragança – Pará. Primeiramente, tenho que reconhecer que esse é um momento de extensão das escolas que se preocupam em levar o conhecimento “além muros” das instituições e engajar os alunos através das reflexões de diversas áreas do conhecimento. Por outro lado fiquei triste. Triste porque procurei encontrar um projeto que refletisse sobre a língua portuguesa ou mesmo sobre a linguagem em geral. Não encontrei! Pergunto-me, então, onde estão os meus colegas? É bonito ver os alunos apresentando o resultado de um trabalho prático e os quais a escola tem obrigação em proporcionar. Em uma das escolas encontrei os seguintes projetos:

1 – Exposição do material de Biologia do Laboratório Multidisciplinar;

2 – Exposição do material de Física do Laboratório Multidisciplinar;

3 – Exposição do material de Química do Laboratório Multidisciplinar

4 – Química: o ponto central da ciência;

5 – Amazônia: fonte de vida;

6 – Magnetismo;

7 – Doenças sexualmente transmissíveis;

8 – Ciência e ética;

9 – A água que bebemos;

10 – Fontes alternativas de energia de Bragança;

11 – A matemática utilizada de forma consciente no comércio de Bragança;

12 – Sociedade e violência;

13 – A necessidade de salvar o planeta e nossas vidas;

14 – Natureza e tecnologia que sobrevivera?

15 – Escrito nas estrelas: o universo para você descobrir;

16 – África “um continente em extinção”;

17 – Corantes naturais: observação das cores através da natureza;

18 – Planeta terra: uma luta pela vida;

19 – Defender a vida, preservando a natureza;

20 – Rádio: nas ondas sonoras de uma história;

Pois bem, estão de parabéns aqueles que organizaram os seus projetos juntamente com seus alunos. Todos os temas elencados acima são de suma importância para a nossa vida em sociedade. A linguagem também deveria ser um desses temas essencialmente importantes, pois a interação está presente em todos os momentos de nossas vidas. Nós, seres humanos, somos constituídos de linguagem. Para onde vamos precisamos usá-la nas mais diversas situações comunicativas. A linguagem também está permeada de história e ideologia os quais devem ser objeto de análise para formação de um leitor competente.  Se dessa vez não deu, da próxima vamos mostrar um pouco da última Flor do Lácio. São vários os materiais que podem ser analisados pelos alunos para mostrar que a linguagem vai muito além de estruturas gramaticais secas e arcaicas. A charge, a piada, a propaganda são bons exemplos de gêneros textuais para se mostrar como se apresenta a ideologia através das escolhas lingüísticas. Trazer temas sobre a linguagem em nossas feiras de ciências irá, com certeza, ampliar o conhecimento e a reflexão sobre o mundo em que vivemos.

Prof. Elias Maurício

Todo mundo fala errado!

Posted by linguaeliberdade On dezembro - 10 - 2009

blablaFreqüentemente se ouve alguém afirmar, desamparado, que “todo mundo fala errado”. Se apenas observarmos superficialmente, poderemos achar que a afirmação está correta. É verdade: ninguém ou quase ninguém fala “certo”. Talvez devêssemos então indagar o que é falar “certo”. A maioria das respostas será que é “falar como está nas gramáticas”, isto é: todo mundo deveria usar, com naturalidade e freqüência, as formas mais sofisticadas da chamada língua-padrão. Nesse caso, diríamos aos amigos, aos filhos, aos empregados coisas como:

- Maria, viste meu filho na escola? – Não, Teresa, Vê-lo-ei amanhã somente.

Ou ainda:

- Poderias dizer-me aonde irás esta noite? – Dir-te-ei unicamente quando tiver regressado.

E ainda coisas deliciosas, como:

- Que pensais da cultura dos nossos universitários? – Não vos posso dar essa resposta, porque seria demasiado desanimadora.

Ora, dirão os meus leitores, que linguajar mais horrível. Que pedantismo, que erudição falsa, que inadequação à nossa realidade. Ninguém fala assim. Enfim uma observação inteligente: ninguém fala assim, porque essas formas, e muitas outras que não estão nos livros, não se usam. Tornaram-se arcaicas, pertencem a um nível de linguagem culto formal, que se aceita, com dor nos ouvidos, em discursos, em sermões de igreja (e olhe lá!. Pelo que nossa liturgia e posturas na Igreja andam evoluindo, em breve a música religiosa será considerada blasfêmia…). São formas apenas aturadas, como se aturam trastes velhos pela casa, enquanto não sabemos onde os colocar. Isso significa que aquilo que os mais ingênuos julgam ser a maneira correta de falar, não passa de fórmula livresca, seca, sem vida. Mas não é, nem de longe, o que devemos empregar diariamente, muito menos na fala. Pois na língua se distinguem duas maneiras de registrar o pensamento: a fala, registro primeiro, e a escrita, registro segundo, isto é, registro da fala. Observando isso, podemos concluir que a escrita é que deve reproduzir a fala, e não vice-versa. Assim não é correto que devêssemos falar como se escreve, mas deveríamos, isso sim, escrever como se fala, o que é impossível por uma série de motivos, um dos quais o de ser a escrita um código determinado por decretos oficiais. Por isso, não é correto somente o que está “nos livros”.

Mas há outros aspectos, como a linguagem ser um comportamento social do homem. Não se usa um calção em uma conferência, nem terno e gravata para ir à piscina (entre amigos), como não se fala de maneira descontraída em uma conferência(…) Na escrita, para aprendermos realmente a escrever, é necessário um treinamento intenso, pois o código é mais complicado, obedece a regras fixas e rígidas. Nadar se aprende nadando; guiar se aprende guiando; falar se aprende falando, e escrever se aprende escrevendo e lendo, para internalizar estruturas. O assunto linguagem é complexo demais para ser tratado num artigo, e todos os livros escritos a respeito ainda nos deixam saudavelmente curiosos e perplexos.

(Texto de Lya Luft)

Prof. Elias Maurício

Crônica “sobre o amor” (Rubem Braga)

Posted by linguaeliberdade On dezembro - 9 - 2009

Sobre o Amor, etc.
(Rubem Braga)

Dizem que o mundo está cada dia menor.

É tão perto do Rio a Paris! Assim é na verdade, mas acontece que raramente vamos sequer a Niterói. E alguma coisa, talvez a idade, alonga nossas distâncias sentimentais.

Na verdade há amigos espalhados pelo mundo. Antigamente era fácil pensar que a vida era algo de muito móvel, e oferecia uma perspectiva infinita e nos sentíamos contentes achando que um belo dia estaríamos todos reunidos em volta de uma farta mesa e nos abraçaríamos e muitos se poriam a cantar e a beber e então tudo seria bom. Agora começamos a aprender o que há de irremissível nas separações. Agora sabemos que jamais voltaremos a estar juntos; pois quando estivermos juntos perceberemos que já somos outros e estamos separados pelo tempo perdido na distância. Cada um de nós terá incorporado a si mesmo o tempo da ausência. Poderemos falar, falar, para nos correspondermos por cima dessa muralha dupla; mas não estaremos juntos; seremos duas outras pessoas, talvez por este motivo, melancólicas; talvez nem isso.

Chamem de louco e tolo ao apaixonado que sente ciúmes quando ouve a sua amada dizer que na véspera de tarde o céu estava uma coisa lindíssima, com mil pequenas nuvens de leve púrpura sobre um azul de sonho. Se ela diz “nunca vi um céu tão bonito assim”, estará dando, certamente, sua impressão de momento; há centenas de céus extraordinários e esquecemos da maneira mais torpe os mais fantásticos crepúsculos que nos emocionaram. Ele porém, na véspera, estava dentro de uma sala qualquer e não viu céu nenhum. Se acaso tivesse chegado à janela e visto, agora seria feliz em saber que em outro ponto da cidade ela também vira. Mas isso não aconteceu, e ele tem ciúmes. Cita outros crepúsculos e mal esconde sua mágoa daquele. Sente que sua amada foi infiel; ela incorporou a si mesma alguma coisa nova que ele não viveu. Será um louco apenas na medida em que o amor é loucura.

Mas terá toda razão, essa feroz razão furiosamente lógica do amor. Nossa amada deve estar conosco solidária perante a nuvem. Por isso, indagamos com tão minucioso fervor sobre a semana de ausência. Sabemos que aqueles 7 dias de distância são 7 inimigos: queremos analisá-los até o fundo, para destruí-los.

Não nego razão aos que dizem que cada um deve respirar um pouco, e fazer sua pequena fuga, ainda que seja apenas ler um romance diferente ou ver um filme que o outro amado não verá. Têm razão; mas não têm paixão. São espertos porque assim procuram adaptar o amor à vida de cada um, e fazê-lo sadio, confortável e melhor, mais prazenteiro e liberal. Para resumir: querem (muito avisadamente, é certo) suprimir o amor.

Isso é bom. Também suprimimos a amizade. É horrível levar as coisas a fundo: a vida é de sua própria natureza leviana e tonta. O amigo que procura manter suas amizades distantes e manda longas cartas sentimentais tem sempre um ar de náufrago fazendo um apelo. Naufragamos a todo instante no mar bobo do tempo e do espaço, entre as ondas de coisas e sentimentos de todo dia. Sentimos perfeitamente isso quando a saudade da amada nos corrói, pois então sentimos que nosso gesto mais simples encerra uma traição. A bela criança que vemos correr ao sol não nos dar um prazer puro; a criança devia correr ao sol, mas Joana devia estar aqui para vê-la, ao nosso lado.

Bem; mais tarde contaremos a Joana que fazia sol e vimos uma criança tão engraçada e linda que corria entre os canteiros querendo pegar uma borboleta com a mão. Mas não estaremos incorporando a criança à vida de Joana; estaremos apenas lhe entregando morto o corpinho do traidor, para que Joana nos perdoe.

Assim somos na paixão do amor, absurdos e tristes. Por isso nos sentimos tão felizes e livres quando deixamos de amar. Que maravilha, que liberdade sadia em poder viver a vida por nossa conta! Só quem amou muito pode sentir essa doce felicidade gratuita que faz de cada sensação nova um prazer pessoal e virgem do qual não devemos dar contas a ninguém que more no fundo de nosso peito. Sentimo-nos fortes, sólidos e tranquilos. Até que começamos a desconfiar de que estamos sozinhos e ao abandono trancados do lado de fora da vida.

Assim o amigo que volta de longe vem rico de muita coisa e sua conversa é prodigiosa de riqueza; nós também despejamos nosso saco de emoções e novidades; mas para um sentir a mão do outro precisam se agarrar ambos a qualquer velha besteira: você se lembra daquela tarde em que tomamos cachaça num café que tinha naquela rua e estava lá uma louca que dizia, etc, etc. Então já não se trata mais de amizade, porém de necrológio.

Sentimos perfeitamente que estamos falando de dois outros sujeitos, que por sinal já faleceram – e eram nós. No amor isso é mais pungente. De onde concluireis comigo que o melhor é não amar, porém aqui, para dar fim a tanta amarga tolice, aqui e ora vos direi a frase antiga: que é melhor não viver. No que não convém pensar muito, pois a vida é curta e, enquanto pensamos, elas se vai, e finda.

Maio, 1948.

Vc conhece o internetês?

Posted by linguaeliberdade On dezembro - 8 - 2009

Vc quer tuitar? Eu axo q seria legal p ixcrever sobre a vida!

teclado computerO que você entender dessa frase? Se não entender, vamos à tradução: “Vc” é a abreviação de “você”, utilizada para acelerar a comunicação. Isso acontece com as letras “p”, que é a abreviação de “para” e “q”, abreviação de “que”.

“Tuitar” significa “escrever no Twitter”, o miniblog que é a sensação do momento. Ao invés de usar a frase “Postar no Twitter” ou algo que o valha, muito mais fácil é criar um verbo para esse propósito, utilizando as regras da gramática (veja que tuitar já está no português e pode ser conjugado, afinal “Eu Tuito, tu tuitas, ele tuita e todos nós tuitamos juntos!”)

As expressões “axo e ixcrever” são também internetês, mas de um tipo diferente. O Miguxês é uma forma de expressão que “imita” a fala de uma criança, considerada meiga ou divertida. É utilizada mais frequentemente por meninas adolescentes, e é a linguagem que mais cria controvérsias em sites, pois é a que mais cria interferências na leitura.

Outras exemplos do internetês: xau (tchau!), kbça (cabeça), naum (não), bls ou blz (beleza), q (que), eh (é), fla (fala), flw (falou), kkkkkkkk ou rsrsrsrsrs e ainda hehehehehe (risadas). Para não terminar por aí bjus (beijos).

Prof. Elias Maurício