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Pesquisador e lingüista da USP recriou diálogos em Português Arcaico

Postado Por linguaeliberdade On janeiro - 30 - 2010

O pesquisador e lingüista da USP, Helder Ferreira, assessorou a equipe de criação dos diálogos de Desmundo. Em especial, os roteiristas Sabina Anzuategui & Alain Fresnot, e os atores, que tinham a missão de dizer os diálogos.  Como inexistem registros sonoros diretos de qualquer enunciado (fala, diálogo, palavra) proferido  no século XVI, tempo histórico do filme, Helder buscou, inicialmente, o estabelecimento de um  conjunto fontes indiretas para reconstrução de uma língua falada (uma porque supõe-se que havia uma variedade significativamente grande de dialetos portugueses, o que ainda hoje se observa) no período quinhentista. Essas fontes são, por exemplo, os textos antigos em que seu redator cometeu um “erro” ou desviou-se do padrão ortográfico ou sintático deixando transparecer marcas de seu português falado (nos originais do XVI, lê-se drento por dentro, duda e corgo por dúvida e córrego, fideputa, ermã, ele dize, deferência por diferência, deze por dez, chea por cheia, eigerja,…).

desmundo

O pesquisador serviu-se, igualmente, de fonte dos registros do português dialetal de algumas regiões do interior do Brasil (que manteve traços de um português mais antigo por razões diversas, tais como o período em que se deu a colonização portuguesa, nível de desenvolvimento humano e sócio-econômico do lugar, grau de difusão da escola formal e de isolamento geográfico e cultural). Para o filme, foram usadas gravações feitas em Diamantina e nas regiões de Serra das Araras e Urucuia.

Por fim, baseado na consideração de que hoje alguns falantes (principalmente não alfabetizados e moradores de lugares distantes dos grandes centros) mantêm traços de um português do XVI, Helder supôs que no XVI haveria falantes que, da mesma maneira, traziam marcas de um português mais antigo, no caso, um português arcaico. Assim, foi possível também usar como fonte textos desde século XII e foram valorizadas sobretudo as construções que desviando do padrão, mostravam-se particularmente expressivas, como a dupla negação (ninhum não viu) e a indeterminação do sujeito com a partícula homem (homem não ousou lutar), ocorrências lexicais interessantes (nulha rem, nemigalha, aramá…), entre outras.

Estabelecidos esses conjunto de fontes, segundo esses critérios, o pesquisador cuidou da reelaboração das formas lingüísticas sob as quais as falas estavam apresentadas no roteiro do filme. Essas reelaborações traziam marcas morfológicas, sintáticas, lexicais e idiomáticas do português do XVI, mas apresentavam ainda as limitações que a modalidade escrita (em alfabeto romano) impõe à representação da oralidade. Preferiu-se não usar o alfabeto fonético por razões didáticas:

Tome-se, como exemplo, a Seq. 57

Branca: Quem pensas que és? Perdeste o juízo? Insultar o padre desta maneira!

– Quem coidas que és? Perdeste o bom sens/joízo? (Sandeceu? Insoitar o padre daquesta

maneira! Zote!

Francisco: Estou cuidando do que é meu / Sou pensando o que meu!

Branca: Não somos absolutos! Senhores de tudo! / Nam somos assolutos! Senhores de todo!

Francisco : A terra é grande. Vamos mais fundo pro  sertão. / A terra é abondo gram/mui gram. Hemos chus drento en no sertão.

De qualquer modo, as limitações foram superadas pela produção de um CD. Os atores receberam  todas as falas do roteiro gravadas neste suporte. A  produção  do  CD  com  as  falas  dos personagens orientou-se de acordo com um sistema fonético-fonológico reconstruído por pesquisas livrescas e de campo. Cada personagem, observadas sua condição sócio-econômica, sua faixa etária e escolaridade, teve suas falas marcadas com formas peculiares. A escolha das formas por mim propostas para as falas se deu em diversas reuniões com os roteiristas. Foi longa a preparação dos atores. E nos demos ao cuidado de acompanhar as filmagens.

O improviso é possível num filme de época? O que fazer frente a uma situação não prevista no

roteiro?  Frente a seqüências e planos criados no set, se a noção de identidade lingüística e a percepção dessa identidade pelos atores é sólida, depois de um certo tempo, os atores já estabelecem uma forma operacional de reconstruir as frases dentro de determinados parâmetros. Por outro lado o Alain me dava um tempo para interferir e eventualmente recriar algumas intervenções.

“O código lingüístico criado para o filme Desmundo pode ser definido como um conjunto aberto e inclusivo de formas ocorridas em toda a România Ocidental Ibérica (desde os primeiros registros do século XI até os documentos de arquivo público do século XVIII) , incluindo as regiões que chamaríamos de Novíssima România, ou seja, localidades onde o português (com toda a sua diversidade) e outras variantes ibéricas (igualmente diversificadas) foram línguas que se impuseram com o processo colonizador europeu (como as variantes ouvidas no interior do Brasil); de modo geral, preferiram-se as formas que desviassem do atual padrão normativo para o português escrito culto, preferiu-se o que a noção comum (e letrada) definiria como “erro” ou “impropriedade” de linguagem, mas que vem a ser um fenômeno que encontra registro histórico-documental às vezes bastante vasto”.

One Response to “Pesquisador e lingüista da USP recriou diálogos em Português Arcaico”

  1. muito interessante
    estava mesmo precisando de algo sobre o filme, pois uso em minhas aulas de história da língua!!!

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