Machado de Assis (1839-1908) escreveu teatro, ensaios, crônicas, contos, romances e diversos artigos em periódicos. A Folha Online, em decorrência do centenário de morte do autor, convidou autores para falarem sobre seus trechos favoritos da vasta obra machadiana. Vejam, então, alguns comentários:
Moacyr Scliar, escritor

Ocupa número 31 da Academia Brasileira de Letras. O trecho escolhido por Scliar está em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”: ”Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia.”
Comentário:
A pena da galhofa e a tinta da melancolia sintetizam o estado de espírito brasileiro. A melancolia foi herdada dos colonizadores lusos que para aqui vieram muitas vezes a contragosto, pensando em enriquecer e ir embora o mais rápido possível; dos negros escravizados; dos índios chacinados; dos imigrantes que lutavam arduamente para conseguir seu lugar ao sol. Mas a galhofa – o humor de nossas anedotas, o riso do Carnaval, a vibração do futebol neutraliza esta melancolia. É uma bipolaridade salvadora, por assim dizer.
Luís Augusto Fischer, professor

Leciona literatura brasileira na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) em Porto Alegre, é autor de “Machado e Borges”, livro lançado pela Arquipélago Editorial. Veja o trecho escolhido por Fischer, que está no ensaio “Notícia da Atual Literatura Brasileira – Instinto de Nacionalidade” (1873): ”Não há dúvida que uma literatura, sobretudo uma literatura nascente, deve principalmente alimentar-se dos assuntos que lhe oferece a sua região, mas não estabeleçamos doutrinas tão absolutas que a empobreçam. O que se deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.”
Comentário:
Entre tantos momentos de lucidez e originalidade em sua crítica, aqui encontramos a célebre equação que desvincula o escritor das obrigações localistas, especialmente daquelas que contentavam os medíocres, como por exemplo o fazer na literatura um relatório das singularidades do país novo. Machado, como poucos outros escritores da América, percebeu que no nacionalismo havia uma armadilha que, no fim das contas, encarcerava o sujeito, obrigando-o a freqüentar um repertório acanhado de temas. Como Poe e Borges, Machado queria pensar autonomamente sobre o mundo todo, sem renegar sua condição de habitante de uma periferia do Ocidente.
Fábio Moon, quadrinista

Adaptou o conto de Machado “O Alienista” para os quadrinhos. Ganhou um prêmio Jabuti 2008 pela obra, “O Alienista (Graphic Novel)”, feita em co-autoria com Gabriel Bá. Veja o trecho escolhido do capítulo quatro, “Uma Teoria Nova”, de “O Alienista”: ”Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada de circunspeção até o pescoço.
–Estou muito contente, disse ele.
–Notícias do nosso povo? perguntou o boticário com a voz trêmula.
O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu: Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha idéia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da Terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.”
Comentário:
A última frase é genial. Nela, com a metáfora da ilha e do continente, Machado de Assis nos prepara para a grande virada da história, para o real problema de Simão Bacamarte e, subsequentemente, de toda Itaguaí. É a partir daí que a história começa a enlouquecer, por assim dizer, e foi essa a frase que nos fez decidir adaptar “O Alienista” para os quadrinhos. É nessa hora que o autor te pega e não larga mais.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/ult90u449345.shtml





