O Karitiana é a única língua sobrevivente da família Arikém, que por sua vez é uma das dez representantes do tronco lingüístico Tupi. Essa família em si é especial no que diz respeito à história das línguas Tupi, por ter sido a única família em que se identificou uma mudança completa do padrão vocálico a partir da língua mãe. No entanto, o interesse teórico do Karitiana não se limita à diacronia. Do ponto de vista sincrônico, fenômenos como caso ergativo, ordem variável de constituintes, interação previsível entre tom e acento, espalhamento de nasalidade e pré e pós oralização de consoantes nasais são alguns dos assuntos de interesse que a língua apresenta.
O estudo da língua Karitiana pode contribuir bastante para o conhecimento das populações indígenas no Brasil antes do contato. Luciana Storto apresentou, em co-autoria com Philip Baldi, um artigo no encontro anual da Linguistic Society of America, em janeiro de 1994, onde foi estabelecida a existência de uma mudança regular em cadeia no sistema vocálico da família Arikém a partir do Proto-Tupi. Neste trabalho foram considerados itens lexicais da língua Arikém (língua até o que se sabe extinta, também pertencente à família Arikém) obtidos em duas listas da década de 1920 e comparadas com dados originais de Karitiana conseguidos em trabalho de campo. O processo foi descrito como uma mudança histórica em cadeia no sistema de cinco vogais em movimento anti-horário, onde Proto-Tupi (PT) *a se torna Proto-Arikém (PA) *o, PT *o se torna PA *i, PT *i > PA *e, e PT *e > PA *a (a vogal *i do Proto-Tupi continuou *i em Proto-Arikém). Sawada & Storto (2004) confirmaram as mudanças apresentadas por Storto & Baldi com um grande número de cognatos de todas as famílias do tronco.
O entendimento de processos como a mudança vocálica acima descrita é fundamental para a reconstrução do Proto-Tupi, um projeto do qual Luciana Storto atualmente participa em associação com pesquisadores de várias instituições coordenados por Denny Moore, do Museu Emílio Goeldi. Este tipo de reconstrução permite acesso a uma riqueza de informações sobre a pré-história dos povos em questão (que viveram aproximadamente 4.500 anos atrás) que é única, porque revela aspectos sociais e culturais daquela população que não se poderia conhecer de outra forma. Por exemplo, através da reconstrução em PT de palavras para roça, mandioca e pau de plantar, pode-se saber que os Proto-Tupi eram agricultores.
O estudo lingüístico pode também contribuir para o conhecimento do povoamento pré-histórico do Brasil, pois são passíveis de serem identificadas em uma língua certas características cuja origem não é genética, mas resultante de contato com outros povos. O Karitiana é neste aspecto especialmente interessante, pois há evidências culturais que indicam um período de contato em que eles tiveram convívio com um povo não Tupi. Por exemplo, eles não têm como prática a produção de farinha de mandioca, que é uma característica típica Tupi. Ao invés de farinha de mandioca, processam o milho. O instrumento usado para processar o milho em mingau é um pilão horizontal e uma pedra retangular. Até algumas gerações atrás, possuíam uma prática de deformação craniana ritual através do uso de um aparato feito de madeira e algodão que, quando usado desde cedo na cabeça de crianças, produzia um achatamento da porção frontal do crânio. Este tipo de pilão e deformação craniana, ao que se sabe, não são característicos dos povos Tupi. Assim, assume-se que estes aparatos devem ter sido adquiridos via contato. É possível que este suposto contato tenha dado origem também á mudança vocálica apresentada acima, que atinge apenas a família Arikém dentre as dez famílias lingüísticas do tronco Tupi.
Alfabetização
O projeto de alfabetização em grande escala foi iniciado em 1994. A escola da aldeia, que contava com uma professora branca da Funai em 1991, e apenas um professor índio em 1992 (Nelson Karitiana), tornou-se majoritariamente indígena em 1995, quando dois professores índios foram contratados pela prefeitura e pelo estado para ministrar aulas na escola. Atualmente (maio de 2005), os professores da escola são Inácio Karitiana, João Karitiana, Luiz Karitiana, Nelson Karitiana e Marcelo Karitiana, que dão aulas na escola bilingüe da aldeia.
Em janeiro de 1996, financiado pelo projeto, Nelson Karitiana passou 20 dias em Belém a fim de conhecer o Museu Goeldi, aprender a utilizar o computador (especificamente, o editor de texto Word), e contribuir para a elaboração duma nova versão do Livro de Apoio ao Aprendizado da Ortografia. Nelson voltou para a aldeia com 80 cópias do guia, que entregou a Luiz Carlos Karitiana, que havia sido nomeado chefe da Casa da Língua pela associação.
No período entre fevereiro e dezembro de 1996, ocorreu um grande salto qualitativo e quantitativo na participação dos Karitiana no projeto de alfabetização. Liderados por Luiz Carlos Karitiana, chefe da Casa da Língua, alguns jovens trabalharam na documentação escrita da cultura, e produziram cinco textos, várias gravações, e alguns estudos de itens lexicais já extintos do vocabulário em uso na língua.
Em janeiro de 1997, Luiz Carlos Karitiana contribuiu para a organização do trabalho no dicionário, do qual participaram 15 membros da comunidade. Professores formados nos anos anteriores contribuiram para a alfabetização de 24 estudantes. Três textos (um ritual, um mito e uma narrativa histórica) foram produzidos (transcritos, digitados e traduzidos).
O projeto de alfabetização, que dispunha de financiamento apenas por quatro anos, foi concluído em 1997, tendo recebido avaliação positiva de um parecerista externo. No entanto, apesar do sucesso, não foi possível manter a continuidade do processo educativo sem uma fonte de financiamento permanente para garantir o andamento dos trabalhos.





